O 10 de Junho é o dia que consagramos a Portugal. Já foi
baptizado com outros nomes: Dia da Raça, (designação antropologicamente aberrante),
Dia de Camões. Hoje, é tão-só Dia de Portugal. E é pouco. Portugal merece dos
portugueses não um só dia, mas todos os dias. E talvez, nesta hora da História
em que duvidamos de tudo e até se, efectivamente, Portugal é uma pátria, a
nossa pátria, mais do que nunca precisamos de lhe dedicar os nossos dias. Com o
nosso trabalho. Com o nosso esforço, inteligência, esperança.
Portugal é um país que descobriu "meio mundo".
Mas, provavelmente, é um país que nunca se descobriu totalmente a si próprio.
Um país é o seu território. Mas é, sobretudo, o seu povo. Por isso, é mais
correcto dizer: os portugueses andaram e andam por todo o mundo. Porém, ainda
não descobriram, por completo, o seu país. Cabe, porventura, aqui, recordar o
poema de Miguel Torga "Pátria":
Soube a definição na minha infância.
Mas o tempo apagou
As linhas que no mapa da memória
A mestra palmatória
Desenhou.
Hoje
Sei apenas gostar
Duma nesga de terra
Debruada de mar.
Temos de apagar da memória descritiva dos tempos esta sina
que nos persegue: parece que só somos bons quando emigramos. Quando navegamos.
Cá dentro, entre portas, desconfiamos de todos, desconfiamos de nós próprios.
Temos fama de preguiçosos, de maldizentes, de invejosos uns dos outros.
Outrora, os outros povos olharam para nós como descobridores do mundo,
vencedores da audácia e peregrinos da imaginação. Hoje, principalmente a partir
dessa Europa, que sempre viu nos povos do Sul, uns desalinhados, a querer viver
à custa dos outros, distensos ao Sol e ao mar que nos invejam, temos perdido
crédito e honra.
O Dia de Portugal deveria ser dia da reflexão. Para
pensarmos que a força genuína que temos dentro de nós não desapareceu. Teremos
de despertá-la, sem nos entregarmos a um desesperante destino de sermos eternos
dependentes de um Estado pobre que tem pouco, cada vez menos, para nos dar.
Teremos de confiar nas nossas capacidades. E nesta emergência de país com a
classe média em grande perda, segmentos de pobres a crescer, trabalhadores a
serem despedidos, famílias inteiras a recorrer ao Banco Alimentar, teremos de
rebuscar a nossa solidariedade.
Portugal é um país repleto de contradições. Conjuga
modernidade e arcaísmos de vária ordem. Nos costumes, nas convicções, nas
práticas de sociabilidade. Novas gerações cruzam o mundo, como cidadãos
globais. E, não obstante estes tempos de incerteza, dentro do país, muitos
jovens ainda querem apostar no seu futuro.
Martin Page, jornalista do The Guardian, nesse livro que dá
por título A Primeira Aldeia Global. Como Portugal Mudou o Mundo, escrito em
2008 (não foi no passado), levou esse jornal que, hoje, tanto acentua os
ratings das contas do nosso país e das nossas empresas, o Financial Times, a
escrever "uma nova perspectiva sobre um país fascinante".
Sem arremessos colonialistas, nem memória de saudosismo
doentio, neste Dia de Portugal, a viver sob o signo da ameaça de deixar de ser,
apetece-me citar Fernando Pessoa e clamar: "Cumpriu-se o Mar, e o Império
se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!"
Portugueses de todo o mundo, ajudem a cumprir Portugal.
Por Paquete de
Oliveira

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